22 de mai de 2017

  • TV americana entrevista força-tarefa da Lava Jato sobre o maior caso de corrupção do Brasil




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    Com o título : OPERAÇÃO LAVA JATO ENVOLVE BILHÕES EM SUBORNOS, PRATICADOS POR POLÍTICOS BRASILEIROS, o jornalista Anderson Cooper, da TV norte-americana CBS News, fez uma reportagem completa sobre o caso no Brasil.  Ele é considerado um dos jornalistas mais populares da televisão americana.
    Leia abaixo a tradução completa da reportagem feita pelo colaborador da República de Curitiba Ricardo Alves.
    21 de maio de 2017

    Por Anderson Cooper
    O procurador-chefe Deltan Dallagnol diz que a Operação Lava Jato é muito maior do que o caso Watergate: mais de 200 pessoas foram acusadas por centenas de crimes. A enorme investigação brasileira começou quando a polícia encontrou provas de que um ex-diretor de uma empresa petrolífera controlada pelo governo, a Petrobras, aceitou um suborno. O juiz Sergio Moro e os promotores estão dispostos a utilizar táticas controversas para combater o crime financeiro. Em 2014, Moro prendeu, sem fiança e por meses, 20 alto executivos de 8 grandes empresas.

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    Imaginem se a investigação do caso Watergate levasse não apenas à queda do presidente Nixon, mas também a alegações contra seu sucessor, incluídos nas mesmas o presidente da Câmara, o líder do Senado, um terço do gabinete e mais de 90 membros do Congresso. Isso dá uma ideia do que está acontecendo no Brasil agora.
    O mercado de ações do país estremeceu semana passada, depois de um relatório indicando que o presidente Michel Temer havia sido pego na gravação, aprovando compensações ilegais … um delito potencialmente capaz de levá-lo ao Impeachment. A última presidente do Brasil, Dilma Rousseff, sofreu Impeachment.
    O país enfrenta uma das piores recessões da sua história e sofre uma crise de liderança causada em grande parte por uma investigação de corrupção maciça. É conhecida como Operação Lava Jato. Representa um dos maiores casos de suborno já investigados e está sendo conduzida por um pequeno grupo de jovens Promotores de Justiça idealistas e pela cruzada pessoal de um juiz de 1ª Instância, Sergio Moro.
    “Já denunciamos mais de 200 pessoas por centenas de crimes, e a quantidade de subornos pagos alcança cerca de dois bilhões de dólares”. ( Deltan Dallagnol )
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    Em Curitiba, uma cidade distante das elites dominantes de Brasília e São Paulo, um pequeno grupo de promotores está trabalhando longas horas, em quartos apertados, na maior investigação que o Brasil já viu – a Operação Lava Jato. Deltan Dallagnol é o promotor-chefe das investigações.
    Anderson Cooper: Como a Operação Lava Jato se compara ao caso Watergate?
    Deltan Dallagnol: A Operação Lava Jato é muito, muito maior.  Anderson Cooper: Maior do que Watergate?
    Deltan Dallagnol: Muito maior. Já denunciamos mais de 200 pessoas por centenas de crimes. Os valores de subornos pagos alcançam cerca de dois bilhões de dólares.
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    Os promotores dizem que o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi o mentor do plano e acusaram-no de corrupção e lavagem de dinheiro. O presidente atual do país, Michel Temer, foi implicado e alguns pedidos para seu impeachment já foram apresentados nestes dias. O poderoso líder da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi condenado a 15 anos de prisão. Trinta e quatro senadores e 62 representantes estão sob investigação.
    A Operação Lava Jato também teve um papel fundamental na queda de uma presidente eleita, a primeira líder feminina do Brasil, Dilma Rousseff. Ela foi acusada, em agosto passado, de algumas violações técnicas das regras orçamentárias. Rousseff não foi acusada de corrupção, mas durante sete anos ela foi a presidente da empresa controlada pelo Estado, no centro da investigação, e isso contribuiu para a indignação pública que determinou seu Impeachment.
    Entrevistamos Rousseff três semanas depois de ter sido acusada.
    Anderson Cooper: Você já recebeu algum suborno?
    Dilma Rousseff: Não. E esse é o problema deles quando se trata de mim: eu nunca recebi nenhum suborno. Eu não sou denunciada pelo recebimento de subornos, eu não tenho nenhuma conta bancária no exterior.
    Anderson Cooper: Eu acho que para algumas pessoas, no entanto, é difícil acreditar que, como presidente, você não saberia que algo estava acontecendo.
    Dilma Rousseff: Deixe-me dizer, eu não sabia. Um posto de gasolina e de serviços, localizado em Brasília, capital do país está por trás do motivo pelo qual a investigação foi nomeada “Operação Lava Jato”.
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    Tudo começou aqui – num posto de gasolina na capital do país – e é por isso que se chama Operação Lava Jato. Nele a polícia federal encontrou suas primeiras pistas há quatro anos – e a trilha que levou a esse homem: Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, empresa controlada pelo governo. A Petrobras era a maior e mais importante empresa do Brasil, responsável pela exploração das vastas reservas de petróleo do país.
    A polícia encontrou provas de que Costa aceitou um suborno e, sob pressão dos investigadores, decidiu delatar, revelando que durante anos os altos executivos da Petrobras e os políticos governantes haviam roubado a empresa – e o país – na surdina.
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    Anderson Cooper: Como transcorreu o testemunho de Paulo Roberto Costa em sua corte? Como foi aquele momento?
    Juiz Sérgio Moro: Ah, esse foi talvez o momento determinante da Operação!
    Anderson Cooper: O momento determinante?
    Juiz Sergio Moro: Sim, foi como naquele filme, “Os Intocáveis”. Sean Connery: Se você atravessar esta porta agora, estará entrando em um mundo de problemas e sem retorno. Você entende? Kevin Costner (como Elliot Ness): [engatilhando a arma] Sim, eu atravesso!
    Anderson Cooper: Você assistiu “Os Intocáveis”?
    Juiz Sergio Moro: Sim, é um ótimo filme.
    Como Elliott Ness em “Os Intocáveis”, o juiz Moro se tornou um herói popular. Os brasileiros tiveram de lidar com a corrupção por décadas, e quando o juiz Moro e os promotores começaram a revelar a extensão da corrupção, as pessoas saíram às ruas para mostrar seu apoio, muitas usando camisas e máscaras do juiz Moro. A investigação tornou-se tão popular que foi confeccionado e distribuído um adesivo que diz: “Eu apoio Lava Jato”.
    A luta contra a corrupção tem sido muitas vezes uma batalha perdida no Brasil. O juiz Moro diz que uma das razões pelas quais a Operação Lava Jato foi bem-sucedida é que ela se utilizou da barganha, baseada no modelo americano, como instrumento para conseguir a cooperação de alguns réus.
    O juiz Moro e os promotores também estão dispostos a usar táticas controversas para combater o crime financeiro. Quando o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, implicou outros em 2014, o juiz Moro os enviou para a prisão antes do julgamento. Vinte executivos de oito grandes empresas foram mantidos detidos e sem fiança por meses.
    Juiz Sergio Moro: Eu entendi que estávamos vivendo em circunstâncias excepcionais, porque a corrupção era tão difundida. E você precisa fazer algo grande para estancá-la.
    O promotor Paulo Galvão disse-nos que as prisões representaram um fator fundamental e sem retorno para a Operação.
    Paulo Galvão: São pessoas que nunca tiveram medo da lei no Brasil. Este foi o momento em que esses indivíduos começaram a perceber que também eles passaram a ser alvos de Operação Lava Jato. Em breve os promotores estavam recebendo ofertas de executivos assustados e políticos dispostos a cooperar e a devolver dinheiro para evitar protelações. E as somas que roubadas eram astronômicas: Costa devolveu US $ 23 milhões de dólares, escondidos em bancos suíços. Foi a maior recuperação financeira da História do Brasil. Ou seja, até que o ex-diretor da Petrobras, Pedro Barusco, se oferecesse para devolver muito mais.
    Deltan Dallagnol: Ele disse que tinha dinheiro no exterior. E então alguém lhe perguntou: “Oh, quanto … quanto dinheiro você tem no exterior?” E ele disse: “US $ 97 milhões e …”
    Anderson Cooper: Noventa e sete milhões de dólares?
    Deltan Dallagnol: Sim, sim. Era uma indivíduo muito influente para que pudéssemos imaginar. Em alguns casos, executivos da Petrobras lavaram seu dinheiro, comprando obras de arte. A polícia confiscou tantas obras de arte que organizou até uma mostra pública no museu de Curitiba. As pinturas podem diferir no estilo, mas muitas compartilham um tema comum: foram penduradas nas paredes de executivos da Petrobras, agora sentenciados e presos. Se você está se perguntando: como eles conseguiram tanto dinheiro de uma empresa petrolífera nacional, sem que ninguém percebesse? O que aconteceu com a construção da refinaria Comperj, 30 quilômetros a leste do Rio, é um bom exemplo.
    O projeto de vários bilhões de dólares deveria gerar mais de 100 mil empregos. Mas hoje a refinaria está inacabada, seu futuro em dúvida, bilhões além do orçamento previsto são necessários para operacionalizá-la. As pessoas que se mudaram para o local de trabalho precisavam esperar em filas os alimentos.
    Em vez disso, ex-diretores e altos executivos da Petrobras agora admitem que permitiram que o custo de construção da refinaria fosse enormemente inflacionado por um cartel de empresas de construção. As empresas de construção pagaram, então, propina aos executivos da Petrobras e aos políticos e partidos políticos para obter estes contratos vantajosos.
    Anderson Cooper: Só para ficar claro, isso estava acontecendo em todos os contratos. E não apenas a cada 10 contratos. Isso era sistemático?
    Deltan Dallagnol: Foi a regra do jogo.
    Procurador Carlos Lima: Esta a forma como a política no Brasil é financiada.
    Anderson Cooper: Você acredita que este foi um esquema de políticos que basicamente viram esta empresa como uma forma de manter o poder?
    Paulo Galvão: Isso é exatamente o que ocorreu – em nosso entendimento. E, de fato, podemos observar que o mesmo esquema aconteceu em outras grandes empresas estatais no Brasil. Em dezembro, os promotores obtiveram um de seus maiores avanços.
    A maior construtora brasileira, a Odebrecht, reconheceu seu papel no esquema de suborno e concordou em pagar bilhões de dólares em multas. A Odebrecht foi um membro-chave do cartel de empresas de construção civil que infiltraram secretamente o custo da Comperj e de outros grandes projetos. Os executivos da empresa agora admitem que tinham uma unidade inteira que funcionava como seu “departamento de suborno”.
    Como parte de um acordo realizado com promotores, o principal executivo da empresa e outros 76 executivos presos prestaram testemunho contra os políticos que eles vêm subornado há mais de uma década. A Odebrecht também admitiu pagar centenas de milhões de dólares para obter negócios em outros 12 países, incluindo Argentina, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, Guatemala e México. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos chamou-o de “o maior caso de suborno estrangeiro da história”.
    Anderson Cooper: Você está ameaçando pessoas muito poderosas. Você já se sentiu risco para a sua segurança?
    Paulo Galvão: É um tipo de risco diferente. Não sentimos ameaças pessoais em termos de segurança. No entanto, estamos sempre enfrentando o risco de ser alvo de críticas nas investigações, como investigadores. Então eles estão sempre tentando dizer que abusamos. O ex-presidente Lula está entre os que criticaram os promotores e o juiz Moro, acusando-os de violar os direitos civis dos acusados. Lula está considerando uma outra candidatura para a presidência em 2018. Em sua primeira aparição na sala do juiz Moro há duas semanas, ele disse ao juiz Moro que as acusações contra ele eram politicamente motivadas – uma ideia que o juiz rejeitou quando conversamos com ele em setembro.
    Juiz Sergio Moro: Ninguém será julgado em tribunal por causa de sua opinião política. O ex-presidente Lula terá todas as oportunidades que nossa lei lhe dá para apresentar sua defesa.
    O governo que substituiu Dilma Rousseff teve um início titubeante. Três ministros foram forçados a renunciar ainda no primeiro mês. O ministro do planejamento foi apanhado em gravação, planejando minar a investigação da Lava Jato.
    O ministro da Transparência foi apanhado dando conselhos sobre como evitar a transparência. Quanto ao ministro do Turismo … foi acusado de evasão fiscal e lavagem de dinheiro. As coisas só se complicaram desde então. No mês passado, a Suprema Corte do Brasil autorizou novas investigações sobre quase 100 políticos, incluindo um terço do Congresso, muitos dos quais partidários do presidente. E na semana passada, a Suprema Corte autorizou uma investigação do próprio presidente Temer e publicou fitas de áudio em que ele alegadamente aprovou pagamentos que foram destinados para comprar o silêncio de uma testemunha. O presidente Temer nega as alegações.
    No Congresso, alguns legisladores sob investigação têm lutado para retroagir as ações, tentando aprovar novas leis para se protegerem e conter o poder dos promotores e juízes, ameaçando assim o futuro da Operação Lava Jato.
    Anderson Cooper: Há muitos interesses poderosos que gostariam de ver tudo isso acabado.
    Juiz Sergio Moro: Sim. Mas é nossa responsabilidade não permitir que eles façam isso. Temos de enfrentar o problema. E encarando isso, acho que teremos … um país melhor.
    Produzido por Andy Court e Sarah Fitzpatrick.
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