14 de out de 2016

  • "Nossas esquerdas geraram consumidores e descuidaram da formação de cidadãos"



    O escritor uruguaio Gustavo Espinosa, que no último dia 1º recebeu o prêmio Bartolomé Hidalgo, da Câmara Uruguaia do Livro, por sua nova novela Todo termina aquí, estará presente na primeira edição do Flic (Festival Literário Internacional Catarinense). Espinosa participa da mesa sobre a “Irreverência na literatura latino-americana”, nesta sexta-feira (14), com Fabián Severo, Carlos Ríos, Ana Porrúa (Argentina) e Antonio Carlos Gonçalves dos Santos (Brasil), com moderação do jornalista e escritor Marlon Aseff. O evento conta com a participação de oito escritores estrangeiros e mais de 50 nacionais ao longo da programação.
    O Flic começou no dia das crianças, com programação dedicada aos novos leitores, que lotaram com suas famílias o espaço do festival, e vai até domingo (16), na Cidade Criativa Pedra Branca, em Palhoça, na Grande Florianópolis (SC). No encerramento do primeiro dia, o show do músico e poeta Arnaldo Antunes reuniu mais de 6 mil pessoas.
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    O festival tem como temas a literatura (infantojuvenil, catarinense, nacional e internacional); a arquitetura e o urbanismo, com uma visão de sustentabilidade; inovação, tecnologia e empreendedorismo; gastronomia e música. Além dos debates com os autores, o Flic tem sessões de autógrafos, lançamentos de livros, exposições, filmes, dança, música, contação de histórias, oficinas de teatro, rua de lazer, troca de livros, folclore, varal literário e festival gastronômico.
    De fora do País, o Flic recebe ainda os escritores Harrie Lemmens (Holanda), Ana Carvalho, Nuno Camarneiro e Afonso Rocha (Portugal). O festival escolheu como patrono o escritor catarinense Celestino Sachet. Os homenageados são os escritores Salim Miguel e Julio de Queiroz (In memoriam), o pintor e poeta Rodrigo de Haro, o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, por seus 120 anos, além do premiado projeto Barca dos Livros. A curadoria do Flic é do jornalista e editor Nelson Rolim de Moura, com direção geral do publicitário Roberto Costa.
    O evento é totalmente gratuito. Para mais informações sobre inscrições e programação, acesse flic2016.com.br.
    Gustavo Espinosa conversou com exclusividade com a Caros Amigos. Leia abaixo:
    Você vai tratar do tema da irreverência na literatura latino-americana. Pode nos adiantar um pouco de sua visão sobre esta questão, já aproveitando para falar sobre a atual produção literária na América Latina?
    A irreverência, isto é, a atitude desrespeitosa aos rituais e instituições, hegemonicas é essencial na tradição literária. A paródia, gênero basicamente irreverente, é, por exemplo, central no Don Quixote, cânone espanhol da literatura mundial. Não deveríamos, no entanto, confundir irreverência com profanação, ou seja, converter em mercadoria aquilo que é, à sua maneira, sagrado. Quanto à minha percepção da literatura no continente devo dizer, em primeiro lugar, que ela é parcial ou insuficiente. Desvanecidas as últimas ondas do boom dos anos 60 e 70 do século passado, e apesar das redes, penso que estamos editorialmente balcanizados. Há grandes corporações que se apropriaram do negócio editorial, mas suas atividades principais são as companhias aéreas, supermercados ou qualquer outra coisa. Esta transnacionalização colocou em circulação uma escritura em série, sem riscos, formatada pela indústria e não pela arte. No Uruguai apareceram bons narradores como Martin Betancor, Damian Gonzalez Bertolino, Daniel Mella, Manuel Soriano, Mercedes Estramil. Há também escritores da minha geração com uma obra consolidada e reconhecida como Amir Hamed ou Carlos Rehermann, mas ambos têm uma circulação muito restrita, porque são publicados por editoras nacionais independentes, com poucas possibilidades de distribuição no exterior. Sei também que muita coisa está sendo publicada na Argentina. Conheço e recomendo a obra de alguns bons escritores dali como Mariana Henriquez, Pedro Mairal, Selva Amada, Sergio Bissio  etc. Porém, nem sempre a grande literatura coincide com a indústria cultural, como aconteceu no teatro elisabetano, a grande narrativa realista no século 19, e aqui no chamado boom latino-americano. Agora, o que circula maciçamente através das fronteiras é auto-ajuda, realismo mágico de segunda mão, historicismo kitsch e várias formas do politicamente correto.
    Você já viveu diversos momentos históricos importantes no Uruguai. Como avalia o atual momento político do país? Quais as principais mudanças - seu significado extrapola o próprio país-, e o que precisa ainda avançar?
    Desde 2005, com a chegada ao poder do Frente Amplio, o Uruguai ingressou no que alguns denominam de progressismo ou pós neoliberalismo ou capitalismo de rosto humano. Costumam atribuir a nós uruguaios uma certa identidade ou comportamento moderado que seria refratário a todo extremismo. Esse é nosso modo de fazer política, a nossa versão do progressismo tem sido pouco arriscada e, talvez por isso, mais estável.  Fez-se a única coisa que você pode fazer no ‘capitalismo de esquerda’: políticas sociais assistencialistas, focalizadas, que visavam remediar os sintomas do desastre provocado pelo neoliberalismo. Ainda estão pendentes gestos mais comprometidos com a distribuição de riqueza, e uma política mais radical de direitos humanos que acabem com a impunidade desfrutada pelos criminosos da ditadura da década de 1970. Também as políticas educacionais têm seguido modelos impostos pelas agências estrangeiras internacionais. Contudo, apesar de  todas as suas deficiências, a esquerda “morna” ou errática, que administrou a crise capitalista deste milênio, parece ser a alternativa menos indesejável diante de uma direita desenfreada que começa a atacar através dos meios de comunicação e do poder judicial. Os argumentos utilizados pela reação de direita são, e aqui acontece a mesma coisa, as denúncias de corrupção e o medo da delinquência.
    Você tem uma abordagem realista em seu trabalho. É um observador crítico dessa realidade. Como vê o momento político no Brasil e na América Latina?
    Prefiro responder as duas questões de maneira simultânea ou articulada. Acho que estamos vivendo uma fase de derrota. Isso se deve, em primeiro lugar, à natureza insaciável do capitalismo, à uma reação revanchista desencadeada pelo ódio de classe que havia permanecido entrincheirado na sombra, reconcentrando a potência do seu veneno durante mais de uma década. É o que está acontecendo na Argentina de Macri e no Brasil de Temer. Por outro lado, a crise desnuda os limites do capitalismo de esquerda, sua incapacidade de produzir mudanças estruturais que transcendam o placebo assistencialista. Mediante a estratégia de estimular o consumo interno, nossas esquerdas geraram consumidores e descuidaram da formação de cidadãos. Quando, por qualquer motivo, as possibilidades de sustentar o hiperconsumo se veem ameaçadas, estes consumidores despolitizados, lobotomizados pela vertigem midiática, começam a desejar a mudança, passam a odiar aqueles que lhes haviam dado as condições para consumir. Para a América, para o mundo, é muito forte o impacto desta vitória da direita no Brasil, pelo tamanho da sua economia, por sua transcendência simbólica, e pelos procedimentos espúrios que ela utilizou. Espero que no Uruguai não fiquemos assistindo como ardem as barbas do nosso vizinho.
    Seu livro Todo termina aqui recebeu recentemente o prêmio Bartolomé Hidalgo, da Câmara Uruguaia do Livro, o mesmo reconhecimento que teve Las Arañas de Marte, em 2011. Fale um pouco sobre este novo trabalho no contexto da sua obra. O que o levou a escrever a história? O livro já tem tradução para o português?
    Todo termina aqui é um melodrama. Tem todos os ingredientes desse gênero: a mulher mais linda do mundo, doenças terríveis, um triângulo amoroso, o fim do mundo e muita música (sobretudo blues). Creio que nestes tempos a busca do sublime adquire o ar ridículo do melodramático. A história está narrada como se fosse uma série de histórias publicadas numa revista provinciana, uma revista de Treinta y Tres, uma cidade de trinta mil habitantes, onde nasci e onde vivo. Lamentavelmente meus livros não foram traduzidos para o português ainda. Estão fazendo gestões para traduzir meu romance “Carlota Podrida”, que narra o sequestro da atriz britânica Charlotte Rampling, na cidade de Treinta y Tres.
    Como é para você, na sua produção literária, a relação entre as questões locais e universais?
    Alguns críticos argumentam que a tensão entre o local e o universal é uma questão central em meus romances. É evidente, por um lado, que há quase um século todos somos uma espécie de criaturas anfíbias, cujo ambiente denso, enlouquecido, é formado pela cultura de massas. Isso determina que nossas periferias sejam uma espécie de paródia miserável, bizarra, das metrópoles. Por outro lado, os escritores devem tratar dessa condição periférica ou excêntrica e fazer a sua articulação com a tradição civilizatória a qual pertencemos.
    Você também é músico. Fale um pouco sobre como funciona esta relação literatura, crítica, música....
    Eu sou apenas um intenso músico amador. Como todo mundo, eu gostaria de ser um rock star. Talvez por isso há música e trilha sonora em todos os meus romances.
    Gustavo Espinosa.Escritor uruguaio, nascido na cidade de Treinta y Tres, professor de literatura, crítico literário e cultural e músico. Colaborador de jornais e revistas. Publicou os romances China es um Frasco de Fetos (2001),   Las Arañas de Marte (2011), Todo Termina Aqui (2016), o livro de poemas Cólico Miserere (2009). Tem vários prêmios literários. É músico, tocou em várias bandas de blues e rock e atualmente integra o grupo musical “Gustavo Espinosa y Los Pisapapeles”.
    Tradução: Carlos Fernando de Moraes Barros.

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