9 de abr de 2016

  • Lava Jato revelou 'corrupção sistêmica', diz Moro nos EUA

    Juiz deu palestra para estudantes brasileiros em Chicago.
    Moro diz que não pode 'ficar pensando em impacto político' da operação.



    O juiz federal Sérgio Moro disse nesta sexta-feira (8), em uma palestra para estudantes brasileiros nos Estados Unidos, que a Operação Lava Jato revelou um quadro de corrupção sistêmica. “A corrupção não se torna um comportamento desviado, mas uma pratica comum. Sistêmico nos assusta”.
    Moro afirmou que não há como varrer problemas para debaixo do tapete. “Se não enfrentarmos os problemas teremos que encontrá-los novamente daqui a alguns anos e talvez em uma escala maior”.
    Segundo o juiz, é necessário fazer com que as instituições funcionem. “Tem que se deixar claro que a Justiça é diferente da política. Não posso ficar pensando no impacto político. Se a decisão tem um impacto político é decorrente da investigação de crimes políticos. Um juiz não pode decidir em relação ao impacto político. Muitas vezes, meu trabalho é erroneamente julgado. Eu julgo e decido pedidos que vem da defesa, Ministério Público, polícia. Eu não acerto todas, eu posso cometer erros, mas eu sempre decido conforme a lei. Não posso levar em conta questões políticas, partidárias. A melhor forma de tratar é transparência e pública”.
    Sérgio Moro disse que a Operação Lava Jato “tem sofrido ataques severos” e que uma “reação do sistema político” pode impedir que o Brasil consiga “ganhos institucionais duradouros”.
    Moro fez as afirmações em referência à Operação Mãos Limpas, que combateu a máfia na Itália nos anos 90 e atingiu os dois principais partidos do país. O juiz lembrou que a Mãos Limpas começou em 1992 com a prisão de um dirigente em Milão e logo cresceu, com a prisão de 800 pessoas nos dois primeiros anos.
    “Apesar de toda a intensidade da Mãos Limpas, ela não refletiu em ganhos institucionais duradouros”, disse Moro, em referência a “leis que afetaram o trabalho da Justiça. Houve reação política que minimizou os efeitos daquilo. É evidente que não há de se culpar os magistrados. O grande problema foi a reação política. Falando com risco de cometer equívocos, a democracia italiana não foi forte suficiente”.
    Para ele, “outra grande questão diante do que a Operação Lava Jato mostrou, é se teremos ganhos institucionais duradouros ou não”. “Isso depende dos políticos, dos eleitores. O que é necessário é que não haja uma reação política, ou, se houver, que nossa democracia seja forte o suficiente, que os casos não sejam desconstruídos em decorrência da reação do sistema político”.
    Moro afirmou ainda que “segredos nós temos que focalizar em casos muito particulares”. “Em matéria de administração pública é necessário que tudo seja tratado com transparência e publicidade”.
    O juiz disse que é importante não contaminar a democracia. “Sei que o quadro no Brasil é um pouco preocupante do ponto de vista da instabilidade política. Mas o que vi foram pessoas indo às ruas sem violência, as instituições democráticas parecem estar funcionando... quanto ao futuro, é difícil ter uma bola de cristal, mas o importante é ter confiança e trabalhar para que as instituições melhorem e para termos uma democracia mais profunda, não contaminada pela corrupção sistêmica”, disse.

    A palestra de Moro foi parte da BrazUSC 2016 (Brazilian Undergraduate Student Conference), uma conferência para estudantes brasileiros no exterior. O evento começou na sexta e termina neste sábado (9) na Universidade de Chicago, nos EUA, e tem ainda em sua programação nomes como Marina Silva, Joaquim Levy e Drauzio Varella, entre outros.
    Sem nomes da Lava Jato
    Moro falou por cerca de uma hora e, depois, respondeu a perguntas da plateia. Ele disse que não mencionaria personagens envolvidos na Lava Jato por haver casos ainda em julgamento.
    Ele demonstrou preocupação com o que chamou de “corrupção sistêmica” no Brasil. “Isso mina a confiança na regra da lei, na democracia. O cidadão comum passa a desconfiar dos políticos, de seus representantes eleitos de uma forma generalizada e injustamente. Ele passa a entender que política é algo ligado a dinheiro e corrupção e não a cidadania”.
    Moro também destacou o papel dos empresários, a quem tem falado em uma série de palestras, e a importância de eles não alimentarem um sistema corrupto. “Temos tendência de localizar nossos males todos no governo, temos essa cultura messiânica. Pensamos que basta escolher a pessoa certa numa eleição que os problemas se resolvem. Tenho feito palestras para empresários para chamar atenção de que corrupção não é só problema do governo. Há quem paga e quem recebe e ambos são culpados”,
    Por fim, o juiz demonstrou otimismo. “O que acontece é que no fundo instituições estão reagindo, trazendo casos à tona para que pessoas culpadas sejam punidas e inocentes sejam absolvidos. Não é um desafio insuperável em um sistema democrático”, disse.
    Via G1

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