26 de out de 2015

  • Sabe aquele papo de que a globalização causa desemprego? É mentira.


    Olhe ao seu redor. Elas estão acontecendo a cada momento, por todos os cantos. Na Rocinha, em Kuala Lumpur, em Nova York. Em resumo, isso é tudo que você precisa saber sobre a forma como a humanidade se organiza: as pessoas pagam para outras pessoas produzirem coisas que elas não sabem fazer. De aviões a microcomputadores. E isso é apenas parte da história. As pessoas pagam também por coisas que elas até poderiam fazer, mas que optam por não realizar porque preferem empregar seus preciosos tempos de outra forma. Da produção de um suquinho de maracujá numa lanchonete àquela marmita gelada sempre à disposição na gôndola do supermercado. Em geral, essas transações acontecem porque, dessa forma, todo mundo fica melhor no final. Nós nos concentramos nas tarefas onde somos mais produtivos, mais eficientes no uso dos recursos escassos do mundo, onde geramos maior valor às outras pessoas com os instrumentos racionais que temos à disposição. E pagamos pelo resto. 
    Isso está presente no seu dia a dia de diversas maneiras. Se você parar pra pensar um pouquinho em como seria a sua vida sem esse sistema robusto de transações, certamente se encontraria numa choupana no meio do mato, ordenhando vacas, tosquiando ovelhas, pilhando toras de madeira para proteger-se do frio, buscando água, tomando banho no rio, cozinhando galinhas – em resumo, dedicando a maior parte do seu tempo para a mera sobrevivência.
    Achou um absurdo abandonar o quentinho do seu quarto para viver nesse cenário? Pois fique sabendo que durante a maior parte da nossa trajetória enquanto espécie foi dessa forma que a humanidade se organizou (não por acaso, por milhares de anos a melhor maneira de enriquecer era adquirindo um escravo). E isso ainda insiste em acontecer em países que não desenvolveram instituições de mercado. No Malawi, por exemplo, um país onde a população predominantemente depende da agricultura de subsistência e 61% vive abaixo da linha de pobreza, uma mulher camponesa ainda gasta 35% de seu tempo colhendo alimentos, 35% cozinhando e lavando, 17% buscando água, 5% coletando lenha para o fogo e 9% em outros tipos de trabalho.
    containers-port
    Como a maior parte da humanidade conseguiu driblar esse cenário e prosperar? Desenvolvendo instituições de mercado que permitissem um sistema robusto de transações. E qualquer debate racional em torno dessa ideia deve partir do princípio de que as pessoas no Brasil, no Malawi ou nos Estados Unidos não são diferentes. Elas buscam rigorosamente a mesma coisa: maximizar suas próprias utilidades, aumentando a quantidade de bens e serviços que conseguem obter com a mesma quantidade de horas trabalhadas, buscando tornar suas vidas melhores através da divisão de trabalho. O que a globalização permite aqui é conectá-las através de uma rede de integração. Quando a humanidade conseguiu construir essa teia, de forma especial nos últimos três séculos, graças a revoluções no transporte e na produção de energia (o britânico médio hoje consome 50 vezes mais energia do que consumia em 1750 e 250 vezes mais transporte, medido em quilômetros viajados), o salto no desenvolvimento humano atingiu níveis nunca antes vistos. Não por acaso, a porcentagem global de pessoas que vivem na absoluta pobreza caiu mais da metade nas últimas cinco décadas, quando parte da Ásia testou pequenas revoluções institucionais que abriram o leque desse amplo sistema de transações. Se você não tem muita noção do que isso significa, imagine que esse é um ganho maior do que o visto nos cinco séculos anteriores.
    Também por isso, a cada dia que passa o mundo fica cada vez mais interdependente economicamente. As exportações mundiais, como parcela do PIB global, subiram de 8% na década de 1950 para cerca de atuais 25%. E a economia global colhe seus frutos por isso. Os etíopes hoje vivem, em média, 24 anos a mais do que em 1960. Os chilenos são mais ricos do que qualquer nação do mundo desenvolvido em 1950. A mortalidade infantil é menor hoje no Nepal do que na Espanha em 1960 (nesse mesmo ano, em média, uma em cada 18 crianças menores de 5 anos morria na Espanha, contra uma em cada 3 no Nepal). Há 35 anos, 84% dos chineses vivia com menos de US$1,25 por dia – esse número caiu para 6%, como reflexo da abertura econômica iniciada com a subida de Deng Xiaoping ao poder. E nós também colhemos o resultado disso. A expectativa média do brasileiro, segundo o Banco Mundial, saltou de 54,6 anos, em 1960, para 73,6, em 2012 – um ganho de inacreditáveis duas décadas de vida.
    Como diz o economista americano Paul Krugman, vencedor do Nobel por sua contribuição na nova teoria do comércio e da economia internacional:
    “Pode-se dizer – e eu diria – que a globalização, provocada não pela bondade humana, mas pela perspectiva de lucro, fez muito mais bem a muito mais gente que todo o auxílio estrangeiro e os empréstimos fáceis já fornecidos por governos e agências internacionais bem-intencionados.”
    Para os inimigos da globalização, no entanto, nada disso é digno de nota. E boa parte da crítica deles reside numa frágil concepção: a ideia de que quando a gente compra, por exemplo, um produto americano, damos dinheiro aos americanos, enchendo o bolso do tio Sam e empobrecendo as nossas próprias carteiras. Isso, no entanto, é tão frágil quanto afirmar que, ao adquirir uma peça de roupa para proteger-se do frio, você permite ao lojista ficar mais rico enquanto você mesmo fica mais pobre – como se ter uma plantação de algodão em seu quintal e participar de cada etapa do processo de produção de uma peça de roupa, não significasse um gasto incomparavelmente maior, além de uma estúpida perda de tempo; tempo que você poderia usar para fazer algo mais produtivo, e com isso ganhar dinheiro.
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    Nem tudo são flores, é verdade. No meio de todo cenário de competição, a globalização evidencia perdedores tomando empregos, em particular de baixa qualificação. Essas perdas, no entanto, tendem a ser pequenas em relação à capacidade de uma economia mais robusta, graças agora à globalização, de gerar novos empregos. Um estudo pós-Nafta concluiu que, em média, foram perdidos 37 mil empregos por ano de 1990 a 1997 por causa do livre comércio dos Estados Unidos com o México. No mesmo período, no entanto, a economia criou 200 mil empregos por mês. E essa notícia você dificilmente verá alardeada pelos militantes do anticapitalismo.
    As máquinas também entram nessa conta, nos discursos contrários à globalização, roubando empregos e deixando trabalhadores às mínguas. Mas mesmo essa é uma ideia frágil. Um estudo recente feito por economistas da consultoria britânica Deloitte, indicado ao Rybczynski Prize, catalogou resultados a partir do censo na Inglaterra e no País de Gales desde 1871, e constatou que, ao contrário do que se imagina, a tecnologia criou mais empregos do que destruiu durante o período. E isso porque esteve abraçada na maior parte do tempo a um cenário institucional que permitiu o desenvolvimento econômico, os processos de destruição criativa e a dinamização da economia.
    Sem seguir, no entanto, um padrão guiado por uma autoridade central, o desenvolvimento econômico possível nos países com instituições de mercado, acrescentou de forma inevitável um hiato entre eles e seus retardatários – aquilo que os inimigos da globalização chamam de inevitável desigualdade entre os países. E esse é um cenário implacável, embora por razões pouco difundidas.
    Normalmente, atribuímos à economia de mercado a culpa pela criação e a propagação da pobreza – algo presente na ilusão pessimista que carregamos a respeito do mundo globalizado. Mas não poderíamos estar mais equivocados. A massificação da riqueza é uma criação da sociedade de mercado e a globalização é um catalisador desse processo. Num mundo, porém, sem um padrão institucional – com países radicalmente opostos em seus apreços pelo livre comércio, a propriedade privada e o respeito a contratos, propulsores da prosperidade – o hiato entre ricos e pobres será inevitável. A desigualdade entre os países é consequência de taxas diferenciadas de crescimento no passado, e não fruto da globalização. Os países são pobres porque cresceram pouco ou não cresceram por um longo período de tempo. E não há segredo – países que alimentam instituições favoráveis ao mercado tendem a enriquecer, enquanto países que as rejeitam tendem a permanecer onde estão. Botswana, Singapura, Hong Kong e Chile apostaram nesse modelo e testemunharam os maiores crescimentos econômicos do último século. Suécia, Suíça e Estados Unidos fizeram o mesmo no século anterior. Não há outra solução para o Brasil. Aqui, condenar a globalização pela desigualdade, e não a ausência de instituições de mercado nos países pobres, é o mesmo que buscar arrancar a cabeça do corpo para curar-se de uma enxaqueca.
    Por isso, toda vez que encaramos a globalização como um monstro, ensinando seus falsos malefícios às nossas crianças e adolescentes nas escolas, e em testes de “aptidão” intelectual que nada fazem além de nos emburrecer, ajudamos a transformar o nosso futuro num lugar ainda mais pobre. Os inimigos da globalização são definitivamente os grandes adversários da prosperidade de nosso tempo. Em regra, além dos pântanos da ignorância, teremos sorte se eles não tomarem conta também das nossas salas de aula.



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